Há uma frase que digo em consulta. Vale a pena dizê-la aqui, com cuidado:
Esta ideia parece paradoxal à primeira leitura, mas tem fundamento biológico claro.
A criança em carência de certos minerais perde, em parte, o sentido do paladar e o apetite, sobretudo por proteína animal. Recusa a carne. Mantém a carência. O ciclo fecha-se sobre si.
Noutras crianças, a falta de ferro funcional traduz-se em apetite oscilante e perda do desejo pela própria carne vermelha. A carência mantém-se. Cansa-se mais. Concentra-se menos. Dorme pior.
A criança com a microbiota empobrecida em bactérias que fermentam fibras vegetais deixa, lentamente, de pedir vegetais. A microbiota é, em parte, quem pede. Quando a microbiota se empobrece, o pedido emudece.
A criança com inflamação intestinal silenciosa cria aversão precisamente aos alimentos que repariam a mucosa se entrassem em condições diferentes. Os alimentos vivos. As fibras. Os fermentados naturais. O corpo, por instinto de protecção, evita o que neste momento o irritaria.
Por isso o que faço em consulta não é forçar o alimento que falta. É reparar o terreno por outras vias. A leitura indica o que repor enquanto a criança ainda não come. Trabalho sobre a função digestiva. Trabalho sobre a mucosa intestinal. Trabalho sobre a microbiota para que volte a pedir o que precisa.
Quando o terreno se repara, a recusa frequentemente cede sozinha. Não em três dias. Em algumas semanas, em alguns meses, com paciência e com método. A criança volta a pedir o que o corpo precisa, sem que a mesa tenha de ser campo de batalha.